terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Resenha - O Guerreiro Silencioso




Ultimamente tenho ganhado gosto por romances históricos. Experimentei há mais ou menos um ano alguns dos livros do Bernard Cornwell, e devo dizer: fui fisgado. Hoje em dia a temática da História medieval da Europa me fascina, e foi justamente esse fascínio que me levou a assistir a essa pérola meio-dinamarquesa, meio-britânica. O filme ganhou muito hype em 2010, devido a sua participação nos Festivais de Veneza e Toronto, e merece a atenção daqueles que prezam o Cinema bem executado.


Mads Mikkelsen, o ator de perfil macabro que interpretou o vilão do reboot da franquia 007 em 2006, protagoniza os 90 minutos congelantes desse tapa-na-cara visual. One-eye, como ele é chamado por ter um dos olhos costurados, é apresentado sujo, acorrentado e enjaulado. Apesar de sua percepção de profundidade defeituosa, One-eye é um guerreiro intrépido e praticamente invencível em sua frieza psicótica. “Sangue no olho” é uma ótima expressão para descreve-lo. Os eventos mostrados no início do filme representam uma espécie de “briga de galo” com seres humanos, em que prisioneiros cobertos de pinturas corporais célticas lutam até a morte pelas apostas de seus senhores. Nessas circunstâncias podemos conferir a força derradeira de One-eye, que mesmo amarrado pelo pescoço consegue vencer o duelo em favor do seu senhor.
Frequentemente trocado entre diferentes senhores, pois ninguém é capaz de mante-lo por muito tempo, One-eye é passado pra frente. Sua natureza brutal garante a alta rotatividade de seus “serviços”. Durante a passagem, ele consegue se libertar com a ajuda do garoto Are, que no grupo de seu antigo dono era encarregado de alimenta-lo. Os dois se tornam livres e formam um pacto silencioso. Pouco depois, eles encontram um grupo de cristãos em Cruzada (peregrinos viajando rumo ao que hoje é a Palestina, em busca de terra e tesouros). Para sobreviverem, juntam-se ao grupo e partem com eles em um barco. A Terra Santa, a terra prometida os aguardava. Jerusalem, o reino de Deus, que é deles por direito, direito adquirido por serem cristãos, por seguirem a cruz. Mas o desígnio do acaso discorda e não apoia a sua jornada. Uma forte neblina os engole durante a viagem, e eles acabam em uma terra sombria desconhecida, onde encontram o seu inexorável destino. Em nenhum momento vemos sinais claros da nacionalidade de nenhum dos personagens. Só se pode especular. O sangue é brilhante e jorra bruscamente. Não há slow motion. Não há trilha sonora: o silêncio acompanha a carnificina. O ponto mais forte do filme é, de longe, a estética. Cenários maravilhosos, figurino impecável e uma direção fria de Nicolas Refn. Pode-se dizer que o roteiro é limitado, mas somente para aqueles que estão acostumados ao cinema excessivamente comercial. Há pouquíssimos diálogos, e apenas alguns deles são esclarecedores em relação ao enredo. É possível que para aqueles que desconhecem o contexto histórico da Europa em 1000 dC o filme não faça o menor sentido. É preciso ter em mente a realidade da Idade das Trevas, o embate entre os cristãos e os pagãos, e também os constantes conflitos entre as diversas tribos e etnias que habitavam a região naquela época. O enredo precisa ser deduzido pelo que se vê, pensa e sabe. Ele não será explicado, mastigado e dado de bandeja por um narrador. Não há uma introdução que situe o espectador no contexto da história. O filme está lá, os acontecimentos são exibidos magistralmente, mas as conclusões finais ficam a cargo exclusivo do espectador. Os detalhes são importantes e o que é dito, embora seja pouco, tem muito significado. O filme é introspectivo e foge completamente do padrão do mainstream. Vale a pena ser conferido por sua indiscutivel beleza estética e, acima de tudo, por sua riqueza em simbolismos misteriosos.





segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Resenha - O Vencedor


Antes de começar a crítica, é importante fazer uma comparação. Não faz muito tempo que decidi fazer críticas de filmes e algo, que talvez não seja novidade para os mais experientes, me chamou atenção. Minha primeira crítica de Cisne Negro inevitavelmente voltou-se para o lado visual do filme que realmente acaba roubando o brilho das atuações e do enredo. Neste O Vencedor (The Fighter), o foco é totalmente nas relações e nas atuações. É gratificante sentir essa diferença.

Enfim, vamos à crítica.

Não sou conhecedor da direção de David O. Russel (Huckabees, Três Reis) sendo esse o seu primeiro longa que assisto. O filme é baseado em fatos reais e tem como ponto de partida a história de Micky Ward (Mark Wahlberg), um boxeador "trampolim", que apenas serve para aumentar as vitórias no currículo de outros mais bem preparados e patrocinados. A razão para Micky continuar num ciclo vicioso de lutas fracassadas encontra-se, ironicamente, onde deveria ser bem cuidado: sua família. O meio-irmão do boxeador é Dicky Eklund (Christian Bale), um ex-boxeador que vive de uma queda que fez em Sugar Ray Leonard, famoso boxeador. Eklund, perdeu a luta, mas ficou famoso por derrubar um lutador consagrado. Em sua cidade, ele é chamado de "O Orgulho de Lowell". Porém, a carreira de Dicky foi curta e ele acabou se viciando em crack. Porém, ele é a maior inspiração de seu irmão "trampolim", que ama o esporte.

O filme é uma cine-biografia, porém David O Russell tenta aproximar-se o máximo que pode de um realismo, mas sem esquecer do drama. Para isso, ele insere dentro do drama, a construção de um documentário. É um tempero a mais na verossimilhança. Pelo que percebi, David O. Russell, também gosta de brincar com contradições, como a cena da limousine.

Mas o que fica mesmo são as atuações de todos os envolvidos. Sim, todos, até os mais coadjuvantes. Christian Bale está excepcional como o excêntrico Dicky e assusta, ao começarem os créditos que mostram o real Dicky, o quanto ele pegou dos traços. Não há Christian Bale no filme, há Dicky Eklund. Provavelmente e com justiça, levará a estatueta.

Até hoje, havia apenas assistido Amy Adams em comédias (Prenda-me Se For Capaz e Encantada) e sua beleza inocente e frágil. Mas aqui, ela é Charlotte. Uma mulher de força, que não se intimida nem por uma legião de conservadoras do Tea Party. Uma mulher que já passou por poucas e boas, mas que está disposta a mudar. E Amy convence.


Porém, a atuação de Melissa Leo como Alice, a mãe quase feudal de Micky e Dicky, é de roubar a cena em muitos momentos. Uma personagens que tem todos os motivos para ser odiada, de ser a vilã. Mas Melissa não nos permite e passa uma humanidade e quase inocência nas atitudes da mãe. Impossível odia-la, possível compreende-la.

Incrivelmente, não achei que um dia escreveria isso, mas todas as atuações conseguem se mostrar graças à Mark Wahlberg. Não sou fã de seu trabalho, mas dessa vez, Walhberg ganhou méritos. Assim como ele é o "trampolim" dos boxeadores, Wahlberg fez de Micky o trampolim de sua família. Ele apanha de todos, quase sem reclamar. E no final, é ele quem acaba por mostrar que temos que deixar de lado os defeitos, os males, as intenções, os egoísmos de lado e que só assim, tudo que todos desejam, seria alcançado. Tímido e humano, Micky é o catalisador de todo o enredo.

Algo que notei, que pode desviar um pouco a atenção do espectador, são as famigeradas e enjoativas cenas de luta. É algo que cansamos de ver em Rocky e seus filhos. Apenas uma tomada das lutas que achei interessante, quando Micky recebe uma sequência de golpes, porém não temos a intensidade da imagem. Impulsivamente, me descolei da cadeira nesta cena procurando, literalmente, os golpes, como uma vizinha curiosa com a desgraça alheia. A narração e as expressões de sua equipe, é que moldam a dor. Empatia.

É um filme justo. Respeita o espectador ao não melodramatizar uma história real, mas sabe utilizar do drama para instiga-lo a entender os acontecimentos. As atuações mereceram no mínimo as indicações e algumas delas, merecem o reconhecimento da academia. Mas essa ainda brinca de "trampolim" para o ultrapassado.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Resenha - Cisne Negro




Dirigido por Darren Aronofsky (Réquiem para um Sonho, O Lutador), Cisne Negro (Black Swan no original) é um longa que dispensa comentários quanto à sua beleza visual. Uma grande homenagem à arte do balé. Mas acima de tudo, um suspense que trata da dualidade reprimida, sendo pressionada a se expor por forças externas.

A história gira em torno de Nina Sayers (interpretada por Natalie Portman), uma bailarina que se encontra na "meia idade" da compania onde atua. Nina é uma garota de exemplo moral quase inquestionável. Segue as regras, esforça-se para ser perfeita, para ficar nos eixos. Para manter-se contundente, Nina conta com a ajuda de sua mãe, a ex-bailarina Erica (Barbara Hershey). Novidades estão para surgir na profissão de Nina: a compania está para lançar uma nova versão do clássico O Lago dos Cisnes e, devida aposentadoria da bailarina estrela Beth (Winona Ryder), abre-se uma vaga para uma nova estrela, que será a Rainha Cisne e terá de intepretar as gêmeas Odette e Odile. A expectativa aumenta, trazendo assim, a ansiedade para a jovem bailarina.

Com o começo das audiências para a escolha da Rainha Cisne, nos é exposta a principal trama do filme. Nina é metódica e racional. Seus movimentos não falham e são bem precisos. Não há erros para seus passos. Para interpretar o cisne branco, Odette, Nina é perfeita. Até sua personalidade é compatível com a da gêmea virginal. Porém, nas falas do diretor do espetáculo Thomas (Vincent Cassel), ele não procura apenas o cisne branco, mas também, o cisne negro. Sorrateiramente, nos é apresentada uma nova bailarina que chega à compania neste momento conturbado: Lily (Mila Kunis). Lily já de cara nos demonstra uma aura despreocupada e atrevida, o oposto de Nina.

Nos primeiros minutos do filme, conseguimos identificar que Nina esforça-se de forma sacrificante para manter-se na linha. A pressão da mãe, por querer que a filha torne-se o que ela não foi; a bulimia para manter o "corpo de bailarina", a repressão pelo desejo de se apaixonar pelo professor e crises de coceira. Enfim, Nina está a ponto de explodir. Ela tenta esconder todos esses contratempos, mas eles sempre vêm à tona quando Nina defronta-se com os inúmeros espelhos que povoam a todo tempo os cenários do filme.


Naturalmente, Nina consegue o papel da Rainha Cisne, mas Thomas a alerta de que se ela não conseguir incorporar Odile, a gêmea oposta, Nina será substituída. A pressão cai em seu frágil corpo novamente e só aumenta quando Lily dá a entender que deseja o papel e não medirá esforços para derrubar Nina. Mas a ironia ocorre por Lily ser exatamente o que a Rainha Cisne precisa ser para ratificar completamente o papel de estrela do espetáculo. Da-se então, uma relação de amor e ódio, por parte de Nina. Bom frisar, que no começo do filme somos apresentados aos personagens e suas personalidades, mas em certo momento estamos totalmente no universo mental e perturbado de Nina e passamos a encarar os personagens como ela está enxergando.

Ao mesmo tempo que Nina está sendo pressionada agressivamente à mudar sua postura para interpretar Odile, ela sofre a superproteção de sua mãe e é aí que os conflitos psicológicos começam a ocorrer com Nina. Muito disso deve-se à câmera claustrofóbica que Darren aplicou, dando closes fechados e desesperados na face de Nina, dando a entender o tamanho da pressão em um corpo tão pequeno e fraco. Para alcançar o ápice do seu sonho, Nina precisa deixar de ser quem ela é.

O filme flerta com o clássico e o moderno. Nina é a representação do clássico e Lily, do moderno. O uso de drogas, as festas exageradas, a tatuagem representam a atual geração que é apelativa, ao mesmo tempo sedutora e leviana. Tudo que Odile, o cisne negro, é.

Mas o cisne negro de Nina, está preso por uma fina camada de vidro, que ela não consegue quebrar. Assim, no clímax do filme, com a quebra do grande espelho, é onde o lado reprimido de Nina liberta-se e possui a jovem bailarina. A reação extrema às provocações externas.

Um excelente filme, onde os aspectos visuais superam a narrativa, o que não significa que a mesma seja ruim, mas com certeza fica atrás do aspecto geral. Aronofsky prova mais uma vez que é um diretor geral, onde utiliza-se de todas as técnicas possíveis para se realizar um bom longa e, dependendo do contexto, sabe valorizar o real aspecto e enaltece-lo.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Resenha - Desista! E Outras Histórias de Franz Kafka


Desista! é uma HQ que tem como base de roteiro, pequenos contos de escritor Franz Kafka (Metamorfose). Os desenhos ficam por conta de Peter Kuper (Spy vs. Spy, World War 3 ambos sem lançamento na terra do vôlei, digo, futebol). Foi lançado pela Conrad em 2008 (a obra foi realizada em 95) e apenas chamou-me atenção por ter relação com Franz Kafka e HQ.


Não sou conhecedor de ambos os traços de Peter Kuper e a narrativa de Franz Kafka. Mas já digo que a pequena obra (70 páginas), vale a pena. As histórias de Kafka, são perfeitamente não datadas, tanto que na época em que seus contos (todos póstumos) foram publicados, o tcheco foi várias vezes tachado de alienado. A HQ contém 9 histórias retiradas de compilações e com textos integrais. Destaque para as histórias Desista!, O Abutre, A Ponte e O Timoneiro. Para quem não está acostumado com leituras mais intrincadas, pode se confundir com os textos de Kafka, tendo em vista que a própria tradução dos textos, é algo de longa discussão entre os especialistas em leitura kafkiana.



O traço de Kuper é incrivelmente envolvente. Nota-se uma mistura de abstração com toques comuns de padrões de quadrinhos. Kuper consegue utilizar do próprio ambiente de um "enquadramento" para dar justaposição à uma página, o que faz a leitura fluir sem problemas. Aliás, a justaposição da obra, são os pontos fortes. Kuper pareceu não deixar os famosos quadros se adaptarem aos desenhos, mas fez o caminho contrário. O enquadramento parece ser obrigado a moldar-se com o traço. Seu traço quase chargista, flerta tranquilamente com o surrealismo, também implícito na escrita de Kafka.


Sobre o trato da Conrad com a obra, há pontos positivos e negativos. É quase um formatinho, mas com material consistente. No final, tem-se uma página inteira com referência das obras de Kafka e seus títulos originais, o que raramente acontece de forma clara em muitas publicações.

Desista! é um prato cheio para quem gosta de experimentalismo em quadrinhos, pois foge do lugar comum e dá um nova referência para outras leituras de HQ's.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Mídia, Hipocrisia, Ética e o Acriticismo Contemporâneo

Primeiro de tudo, quero deixar claro que este texto não tem como princípio a defesa de valores sócio-ideológicos. Não é um manifesto comunista ou esquerdista. No máximo. pode ser considerado um manifesto jornalístico. Então, tentem entender a essência real da informação.

Estamos todos acompanhando a revolução que está ocorrendo no Egito. Alguns acham a situação horrível, mas temos que entender que é o povo quem está falando contra a opressão de uma ditadura. Se muitos estão morrendo, podem apostar que as mortes poderiam se evitadas se este mesmo governo, escutasse o seu povo. O que claramente, não é a função daquela ditadura.
Quero focar na palavra ditadura. Eu, uma pessoa que ainda não exerce a função de um jornalista e dependo ainda muito do que a mídia me oferece, desconhecia que nesses países do oriente, ainda existiam ditaduras. E aposto que muitos de vocês que acompanham a grande mídia, também desconheciam esse fato. Enquanto algumas ditaduras estão sempre nos holofotes, como Cuba e Venezuela, outras estão omitidas. E por que? Não é toda ditadura um atentado aos direitos humanos e à liberdade? Não deveria toda ditadura ser combatida e denunciada mundo afora? Por quais motivos, então, os governos da Tunísia e Egito, eram silenciosos, se depois dos movimentos populares, apareceram como ditaduras?


Bom, com esta duvida na minha cabeça, tentei chegar à uma resposta para essa pequena falha da imprensa brasileira. Grande surpresa a minha, quando na própria grande mídia, encontrei a resposta, quando vi o discurso do presidente dos E.U.A, Barack Obama, dizer que apesar dos conflitos, não retiraria o investimento de bilhões que os americanos injetavam na ditadura do Egito. O mesmo governo que espanca Fidel Castro e Hugo Chavez com seus discursos de liberdade, é o mesmo que investe em um governo ditatorial.
Como sabemos, a maior emissora pública do nosso país, recebe capital direto de empresas da América do Norte e então, fica claro o seu posicionamento diante os acontecimentos mundiais.
Fazendo esta análise, podemos chegar à conclusão de que os grandes alardes quanto aos regimes de Cuba e Venezuela, não passam de velhas perseguições políticas da época da Guerra Fria. Pelo simples fato dos dois governos serem de esquerda, há uma fome de destruição e manchação de imagem. Novamente, isto não é uma defesa à estes governos que também praticam atos pouco morais, segundo as informações que temos. Mas e agora? Como podemos aceitar as informações da grande mídia que sempre demoniza Castro e Chávez, mas ao mesmo tempo endossa outros governos tanto quanto ou mais cruéis que os governos latinos?


É claro que existem os interesses econômicos e as cartilhas de cada órgão de imprensa, mas isso deveria superar o papel do jornalista de informar, denunciar e opinar diante dos fatos? E quanto a responsabilidade ética com o público medíocre (sem pejorativos, por favor)?
Para mim, no mínimo isso causaria uma certa desconfiança com o emissor da notícia. Bom, mas isso eu já tenho com a grande mídia faz tempo. Também não estou dizendo que não se deve noticiar o acontecido, mas não quer dizer que devemos valorizar totalmente o que se diz. Dizer que o Egito está um caos, não basta. Era preciso, como jornalista, explicar exatamente o que acontece e acompanhar as truculências que foram cometidas àquele povo. Mas vão me dizer, que esse é o papel da impressa egípcia. Ok, então, que tal a imprensa brasileira parar de cobrir os "atentados à liberdade" nos países latinos?


Para terminar, gostaria de dizer que está em nossas mãos manter uma postura ética contundente perante o que nos é dado. O acriticismo vem crescendo conforme o passar dos anos, estamos opinando menos, valorizando nossos interesses infantis cada vez mais. E isso é exatamente o que os donos do mundo querem de vocês. A não ser que você sinta-se seduzido por uma cadeira no topo do mundo, comece a ser mais crítico e não tenha medo de desagradar.

Por hoje é isso, obrigado por lerem.
Até a próxima!

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Ano Novo e Tudo de Novo

Não gosto muito de falar em "ano novo" ou "planos para ano X". Porém, as coisas funcionam dessa forma. Na verdade, não é um "novo ano" que começa, mas é um ciclo que se recicla. Então, o ciclo desse ano desse que vos narra, é o início de uma nova empreitada. Depois de passar 3 anos cursando Publicidade e Propaganda, descobri que não era bem aquilo que me esperava. Por privilégios (coisas que muitos não têm, infelizmente) fui capaz de abdicar de uma carreira frustrante e me preparar pra escolher quase exatamente o que eu gostaria e também, o que eu poderia lidar com. Quando digo lidar com, quero dizer que por essência, todos nós seriamos capazes de fazer o que quisermos. Sabemos que muitas das situações em que agimos, são imediatas, urgentes. Não poderia ser diferente para mim. O tempo começa a denunciar e a desmoralizar uma pessoa. "Eu com 18 anos, já..." é uma frase que a maioria de nossos familiares já soltou. Meu pai por exemplo, aos 18 já estava casado e com duas bocas para alimentar. Eu com 23, não estou tão destinado quanto ele. Não me dariam tempo para fazer um cursinho e me preparar para ingressar em uma universidade pública. Por questões como essa, escolhi cursar Jornalismo por uma faculdade particular. Como eu disse, obtive certos privilégios que me pouparam algumas dores de cabeça burocráticas para completar este curso. Mas mais importante que isso, estou preparado, motivado e seguro. Sei que encontrarei dificuldades. Quem me conhece sabe que sou uma pessoa um tanto difícil, com certas inflexibilidades.

Aí aparecerão novas velhas pessoas, novas pessoas, novas amizades, novas inimizades. Haverá direcionamentos de conduta, haverá um pequeno bullying com certeza. Mas como eu disse, estou preparado. Do contrário do que se andam pensando, Jornalismo difere da publicidade. Não precisarei tanto de manter certas educações afim de abocanhar alguma oportunidade. É um ramo que o seu talento é quase fundamental para se destacar e evoluir. Sim, tenho certas ressalvas quanto a virtuosidade da publicidade, mas nada contra os publicitários.

A única coisa que espero, nesse reciclo, é um pouco de respeito e compaixão, para que assim consiga manter o foco e não me preocupar com os arredores da "não-paixão".

Ah, e quem sabe, no olho do furacão e no desejo de produzir, este blog não engrena de vez e venha a ser útil para a rede social gigantesca que convivemos nos dias de hoje.

Falamo-nos em breve!

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Onde Estão Os Mascarados?

* texto originalmente publicado em meu outro blog: http://qdequadrinhos.blogspot.com/

Eu sou um grande fã de quadrinhos. Especialmente os que tratam de super-heróis. Cresci lendo-os, grande parte do meu conceito moral, adquiri desses seres fantásticos que faziam tudo pelo bem. Eles salvavam o mundo e o mundo não sabia de suas identidades secretas. Era algo como “não se preocupem, meus problemas não são maiores que os problemas do mundo. Com o tempo, e com mais conhecimento, esse mito foi caindo e hoje é mais difícil ler algum quadrinho atual, que tenha a premissa moral, sem questionar. Ao buscar coisas diferentes dentro desse universo, achei autores como Alan Moore e Frank Miller. Estes dois são responsáveis por desmistificarem o conceito de “super-herói”. Numa primeira leitura de suas obras, tem-se a impressão de que tomaram o caminho inverso: “os nossos problemas podem ser maiores que os problemas do mundo”, mas é muito mais que isso. Mais do que nunca, provaram que os problemas dos indivíduos, são os problemas do mundo. Uma ex-namorada viciada em heroína, podia transformar a vida de um super-herói num inferno, por mais que ele mesmo se vista de demônio. A iminente destruição do mundo, pode abalar até mesmo a mente mais moralista do mundo. Temas que, até então, eram tabus, trouxeram uma nova leitura para os apaixonados pela arte sequencial. Mas por outro lado, apesar de histórias muito bem colocadas, roteirizadas e desenhadas, houve um revés. Todos esses heróis foram “desmascarados”. Vimos um Superman descontrolado ao saber que viveu uma ilusão, um Batman muito mais amargurado e imoral, um Demolidor à beira da loucura. Nós vimos um deus indiferente aos pequenos humanos.

E, pior, nós vimos todos jogados num quarto iluminado, de frente com os demônios. Alguns se entregaram aos demônios, outros lutaram bravamente, porém, poucos sobreviveram. E não é isso que acontece com muitos (será exagero dizer todos?) de nós? Aprendemos a ser corretos, a praticarmos as leis, respeitar uns aos outros, a vestirmos uma camiseta com um S estampado no peito. Porém, ao sairmos para praticar o que aprendemos, encontramos nossos mestres como algozes. É como quando Harry Osborn descobre que seu pai, Norman, era o Duende Verde. Ele não sente raiva, pelo contrário, segue os passos do pai. O que me parece natural. Daí pra frente, provavelmente os editores das indústrias de quadrinhos pensaram “e agora? o que vamos fazer?”. Na verdade, já não havia muito o que fazer, então tivemos os famigerados anos 90, a era obscura dos quadrinhos, por mais colorida que fosse. Histórias ruins, jogadas goela abaixo. Tramas sem sentido que subestimavam a capacidade mental dos leitores. Conseguem fazer um paralelo entre os salvadores do mundo desmascarados, com o a nossa realidade? Eu consigo perfeitamente. Por essas e outras, que amo os quadrinhos. Uma arte que consegue ser autêntica, mas com um pé no pop. Tipo, David Bowie, sabe? Enfim, deixe-me explicar como enxergo esse paralelo do universo dos quadrinhos com a realidade que nos é dada hoje.

Todos sabemos que mediante nossos abusos em relação aos recursos naturais, a Terra pode acabar mais rápido que o esperado. Pois, todo mundo sabe que o planeta ia morrer um dia,

certo? Se você não sabia, bom, desculpa estragar, mas é verdade. Mas nós estamos acelerando esse processo, não só por nosso consumo exagerado, mas também pelo fato de que não mudamos nossa forma de pensar, de querer algo diferente, de cortar o mal pela raíz. É um processo um pouco delicado e longo, mas que não temos feito e/ou praticado ultimamente. Alguém não gostou disso e começou a reclamar, fazendo um certo, digamos, “barulho”. Você sabe de quem estou falando. Nós cutucamos a onça com vara curta, mas para nossa sorte, ela só está rosnando. Por enquanto. Porém, o rosnado foi alto suficiente para que alguns prestassem atenção e começarem a nos avisar. Cada um da sua forma. Uns de forma profética, outros como um aviso para a mudança. Tem gente que não acordou mesmo e muitos deles são levados por quem gritar mais. Os proféticos, acham que é o fim mesmo, daquele escrito milhares de anos atrás e muitos deles, parecem esperar por esse fim, ao invés de tomarem atitudes para mudar o paradigma. Existe ainda, uma terceira classe. Os oportunistas. Eles enxergam esse aviso do planeta, como um meio de atingirem os seus objetivos. Alguns, com objetivos nobres, com certeza. Mas muitos, não tão nobres assim. Com essa oportunidade, acredito que temos um novo ramo de mercado global. Um novo jeito de ganhar dinheiro e crescer assim o capital empresarial. Você com certeza já ouviu falar de sustentabilidade. Claro que já. Você já ouviu falar de eco-qualquer-coisa. São termos do momento. E aí que se encontra o mercado atual. O mercado de salvação do planeta. Repare que nos últimos anos, muitas marcas surgiram com um conceito benigno. Passam uma imagem de serem boas para o planeta. Convenhamos, que muitas delas o fazem de maneira ofensiva, pois muitos sabem que elas fazem justamente o contrário, sendo malignas para toda a sociedade. Muitas marcas, estão estampadas em eventos que promovem conceitos ecológicos e/ou sustentáveis. Com seus patrocínios servindo justamente, de propaganda. São os heróis desmascarados. Estão em todos os lugares, sorrindo, mostrando todo o bem que fazem para o planeta. E aqui que eu coloco o título do texto: “Onde estão os mascarados?”. Parece que há uma luta para ver quem salvará o planeta e ficará com toda a fama. O planeta não é de todos? Não deveríamos salva-lo, independentemente de nossas crenças, ideologias e preferências? Tudo bem, todos temos necessidades a cumprir, temos nossos problemas. Pois, acho que devemos voltar até a era de ouro dos quadrinhos. Quando os heróis salvavam o mundo e ninguém sabia quem eles eram realmente. Desculpem empresas, vocês podem pensar em boas intenções ao patrocinarem eventos, colocarem suas marcas como pró-sustentabilidade, mas eu acredito que ao estamparem suas caras, vocês mostram quem realmente são: empresas. E empresas, todos sabem, visam em primeiro lugar o lucro. Se alguém tem algum argumento contra, favor me indique, eu gostaria mesmo de ouvir que não é assim, porém, ainda não achei tal ponto.

O que quero dizer, nos finais, é que acredito na anonimidade dos super-heróis. Se eu estivesse na Guerra Civil (a saga da Marvel, não a de verdade) eu tomaria fácil o lado do Capitão América, pela não aprovação da Lei de Registro de Super-Humanos. E não pelo princípio de que isso traria ameaça aos próximos do mascarado. Partindo da linha que aqueles que desmistificaram os super-humanos, acredito que o problema de um, é o problema de todos. E aquele que coloca a máscara, nos mostra que ele está lutando por nossos problemas e não para resolver os seus.

Claro que começamos a nos mover a partir de um problema nosso, mas novamente, será nosso mesmo? Será que suas contas a pagar, se tornaram o problema apenas porque naquele mês você gastou mais? Será que realmente, nossos problemas são únicos (os problemas e não suas medidas, que fique bem claro). Não seria válido que ao lutar por nossos problemas, poderemos vestir uma máscara, mas que ao ficarmos cansados, passamos a máscara para o próximo, enquanto voltamos para sermos nós mesmos e no dia seguinte, vestir a máscara novamente?

Eis minha proposta, empresas que querem salvar o mundo e pessoas ordinárias. Há uma questão importante levantada no filme Superman Returns, onde Lois Lane (eterno par romântico do escoteiro), escreve um artigo no final do filme “Porque o mundo precisa do Superman”. Eu concordo, mas proponho algo mais além e de maior massa. Acho que o mundo precisa de Supermen. No plural. Sejam super-heróis de verdade. Tirem a máscara mal-feita, composta de ouro e diamante de suas caras e coloquem uma que seja acessível para todos nós, para que, ao menos, em nossas lutas sejamos iguais e companheiros. Avante, Salvadores!