terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Resenha - O Guerreiro Silencioso
Ultimamente tenho ganhado gosto por romances históricos. Experimentei há mais ou menos um ano alguns dos livros do Bernard Cornwell, e devo dizer: fui fisgado. Hoje em dia a temática da História medieval da Europa me fascina, e foi justamente esse fascínio que me levou a assistir a essa pérola meio-dinamarquesa, meio-britânica. O filme ganhou muito hype em 2010, devido a sua participação nos Festivais de Veneza e Toronto, e merece a atenção daqueles que prezam o Cinema bem executado.
Mads Mikkelsen, o ator de perfil macabro que interpretou o vilão do reboot da franquia 007 em 2006, protagoniza os 90 minutos congelantes desse tapa-na-cara visual. One-eye, como ele é chamado por ter um dos olhos costurados, é apresentado sujo, acorrentado e enjaulado. Apesar de sua percepção de profundidade defeituosa, One-eye é um guerreiro intrépido e praticamente invencível em sua frieza psicótica. “Sangue no olho” é uma ótima expressão para descreve-lo. Os eventos mostrados no início do filme representam uma espécie de “briga de galo” com seres humanos, em que prisioneiros cobertos de pinturas corporais célticas lutam até a morte pelas apostas de seus senhores. Nessas circunstâncias podemos conferir a força derradeira de One-eye, que mesmo amarrado pelo pescoço consegue vencer o duelo em favor do seu senhor.
Frequentemente trocado entre diferentes senhores, pois ninguém é capaz de mante-lo por muito tempo, One-eye é passado pra frente. Sua natureza brutal garante a alta rotatividade de seus “serviços”. Durante a passagem, ele consegue se libertar com a ajuda do garoto Are, que no grupo de seu antigo dono era encarregado de alimenta-lo. Os dois se tornam livres e formam um pacto silencioso. Pouco depois, eles encontram um grupo de cristãos em Cruzada (peregrinos viajando rumo ao que hoje é a Palestina, em busca de terra e tesouros). Para sobreviverem, juntam-se ao grupo e partem com eles em um barco. A Terra Santa, a terra prometida os aguardava. Jerusalem, o reino de Deus, que é deles por direito, direito adquirido por serem cristãos, por seguirem a cruz. Mas o desígnio do acaso discorda e não apoia a sua jornada. Uma forte neblina os engole durante a viagem, e eles acabam em uma terra sombria desconhecida, onde encontram o seu inexorável destino. Em nenhum momento vemos sinais claros da nacionalidade de nenhum dos personagens. Só se pode especular. O sangue é brilhante e jorra bruscamente. Não há slow motion. Não há trilha sonora: o silêncio acompanha a carnificina. O ponto mais forte do filme é, de longe, a estética. Cenários maravilhosos, figurino impecável e uma direção fria de Nicolas Refn. Pode-se dizer que o roteiro é limitado, mas somente para aqueles que estão acostumados ao cinema excessivamente comercial. Há pouquíssimos diálogos, e apenas alguns deles são esclarecedores em relação ao enredo. É possível que para aqueles que desconhecem o contexto histórico da Europa em 1000 dC o filme não faça o menor sentido. É preciso ter em mente a realidade da Idade das Trevas, o embate entre os cristãos e os pagãos, e também os constantes conflitos entre as diversas tribos e etnias que habitavam a região naquela época. O enredo precisa ser deduzido pelo que se vê, pensa e sabe. Ele não será explicado, mastigado e dado de bandeja por um narrador. Não há uma introdução que situe o espectador no contexto da história. O filme está lá, os acontecimentos são exibidos magistralmente, mas as conclusões finais ficam a cargo exclusivo do espectador. Os detalhes são importantes e o que é dito, embora seja pouco, tem muito significado. O filme é introspectivo e foge completamente do padrão do mainstream. Vale a pena ser conferido por sua indiscutivel beleza estética e, acima de tudo, por sua riqueza em simbolismos misteriosos.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Resenha - O Vencedor
Antes de começar a crítica, é importante fazer uma comparação. Não faz muito tempo que decidi fazer críticas de filmes e algo, que talvez não seja novidade para os mais experientes, me chamou atenção. Minha primeira crítica de Cisne Negro inevitavelmente voltou-se para o lado visual do filme que realmente acaba roubando o brilho das atuações e do enredo. Neste O Vencedor (The Fighter), o foco é totalmente nas relações e nas atuações. É gratificante sentir essa diferença.
domingo, 6 de fevereiro de 2011
Resenha - Cisne Negro



quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Resenha - Desista! E Outras Histórias de Franz Kafka
O traço de Kuper é incrivelmente envolvente. Nota-se uma mistura de abstração com toques comuns de padrões de quadrinhos. Kuper consegue utilizar do próprio ambiente de um "enquadramento" para dar justaposição à uma página, o que faz a leitura fluir sem problemas. Aliás, a justaposição da obra, são os pontos fortes. Kuper pareceu não deixar os famosos quadros se adaptarem aos desenhos, mas fez o caminho contrário. O enquadramento parece ser obrigado a moldar-se com o traço. Seu traço quase chargista, flerta tranquilamente com o surrealismo, também implícito na escrita de Kafka.

Sobre o trato da Conrad com a obra, há pontos positivos e negativos. É quase um formatinho, mas com material consistente. No final, tem-se uma página inteira com referência das obras de Kafka e seus títulos originais, o que raramente acontece de forma clara em muitas publicações.
Desista! é um prato cheio para quem gosta de experimentalismo em quadrinhos, pois foge do lugar comum e dá um nova referência para outras leituras de HQ's.
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Mídia, Hipocrisia, Ética e o Acriticismo Contemporâneo


segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
Ano Novo e Tudo de Novo
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
Onde Estão Os Mascarados?
* texto originalmente publicado em meu outro blog: http://qdequadrinhos.blogspot.com/
Eu sou um grande fã de quadrinhos. Especialmente os que tratam de super-heróis. Cresci lendo-os, grande parte do meu conceito moral, adquiri desses seres fantásticos que faziam tudo pelo bem. Eles salvavam o mundo e o mundo não sabia de suas identidades secretas. Era algo como “não se preocupem, meus problemas não são maiores que os problemas do mundo. Com o tempo, e com mais conhecimento, esse mito foi caindo e hoje é mais difícil ler algum quadrinho atual, que tenha a premissa moral, sem questionar. Ao buscar coisas diferentes dentro desse universo, achei autores como Alan Moore e Frank Miller. Estes dois são responsáveis por desmistificarem o conceito de “super-herói”. Numa primeira leitura de suas obras, tem-se a impressão de que tomaram o caminho inverso: “os nossos problemas podem ser maiores que os problemas do mundo”, mas é muito mais que isso. Mais do que nunca, provaram que os problemas dos indivíduos, são os problemas do mundo. Uma ex-namorada viciada em heroína, podia transformar a vida de um super-herói num inferno, por mais que ele mesmo se vista de demônio. A iminente destruição do mundo, pode abalar até mesmo a mente mais moralista do mundo. Temas que, até então, eram tabus, trouxeram uma nova leitura para os apaixonados pela arte sequencial. Mas por outro lado, apesar de histórias muito bem colocadas, roteirizadas e desenhadas, houve um revés. Todos esses heróis foram “desmascarados”. Vimos um Superman descontrolado ao saber que viveu uma ilusão, um Batman muito mais amargurado e imoral, um Demolidor à beira da loucura. Nós vimos um deus indiferente aos pequenos humanos.

E, pior, nós vimos todos jogados num quarto iluminado, de frente com os demônios. Alguns se entregaram aos demônios, outros lutaram bravamente, porém, poucos sobreviveram. E não é isso que acontece com muitos (será exagero dizer todos?) de nós? Aprendemos a ser corretos, a praticarmos as leis, respeitar uns aos outros, a vestirmos uma camiseta com um S estampado no peito. Porém, ao sairmos para praticar o que aprendemos, encontramos nossos mestres como algozes. É como quando Harry Osborn descobre que seu pai, Norman, era o Duende Verde. Ele não sente raiva, pelo contrário, segue os passos do pai. O que me parece natural. Daí pra frente, provavelmente os editores das indústrias de quadrinhos pensaram “e agora? o que vamos fazer?”. Na verdade, já não havia muito o que fazer, então tivemos os famigerados anos 90, a era obscura dos quadrinhos, por mais colorida que fosse. Histórias ruins, jogadas goela abaixo. Tramas sem sentido que subestimavam a capacidade mental dos leitores. Conseguem fazer um paralelo entre os salvadores do mundo desmascarados, com o a nossa realidade? Eu consigo perfeitamente. Por essas e outras, que amo os quadrinhos. Uma arte que consegue ser autêntica, mas com um pé no pop. Tipo, David Bowie, sabe? Enfim, deixe-me explicar como enxergo esse paralelo do universo dos quadrinhos com a realidade que nos é dada hoje.
Todos sabemos que mediante nossos abusos em relação aos recursos naturais, a Terra pode acabar mais rápido que o esperado. Pois, todo mundo sabe que o planeta ia morrer um dia,

certo? Se você não sabia, bom, desculpa estragar, mas é verdade. Mas nós estamos acelerando esse processo, não só por nosso consumo exagerado, mas também pelo fato de que não mudamos nossa forma de pensar, de querer algo diferente, de cortar o mal pela raíz. É um processo um pouco delicado e longo, mas que não temos feito e/ou praticado ultimamente. Alguém não gostou disso e começou a reclamar, fazendo um certo, digamos, “barulho”. Você sabe de quem estou falando. Nós cutucamos a onça com vara curta, mas para nossa sorte, ela só está rosnando. Por enquanto. Porém, o rosnado foi alto suficiente para que alguns prestassem atenção e começarem a nos avisar. Cada um da sua forma. Uns de forma profética, outros como um aviso para a mudança. Tem gente que não acordou mesmo e muitos deles são levados por quem gritar mais. Os proféticos, acham que é o fim mesmo, daquele escrito milhares de anos atrás e muitos deles, parecem esperar por esse fim, ao invés de tomarem atitudes para mudar o paradigma. Existe ainda, uma terceira classe. Os oportunistas. Eles enxergam esse aviso do planeta, como um meio de atingirem os seus objetivos. Alguns, com objetivos nobres, com certeza. Mas muitos, não tão nobres assim. Com essa oportunidade, acredito que temos um novo ramo de mercado global. Um novo jeito de ganhar dinheiro e crescer assim o capital empresarial. Você com certeza já ouviu falar de sustentabilidade. Claro que já. Você já ouviu falar de eco-qualquer-coisa. São termos do momento. E aí que se encontra o mercado atual. O mercado de salvação do planeta. Repare que nos últimos anos, muitas marcas surgiram com um conceito benigno. Passam uma imagem de serem boas para o planeta. Convenhamos, que muitas delas o fazem de maneira ofensiva, pois muitos sabem que elas fazem justamente o contrário, sendo malignas para toda a sociedade. Muitas marcas, estão estampadas em eventos que promovem conceitos ecológicos e/ou sustentáveis. Com seus patrocínios servindo justamente, de propaganda. São os heróis desmascarados. Estão em todos os lugares, sorrindo, mostrando todo o bem que fazem para o planeta. E aqui que eu coloco o título do texto: “Onde estão os mascarados?”. Parece que há uma luta para ver quem salvará o planeta e ficará com toda a fama. O planeta não é de todos? Não deveríamos salva-lo, independentemente de nossas crenças, ideologias e preferências? Tudo bem, todos temos necessidades a cumprir, temos nossos problemas. Pois, acho que devemos voltar até a era de ouro dos quadrinhos. Quando os heróis salvavam o mundo e ninguém sabia quem eles eram realmente. Desculpem empresas, vocês podem pensar em boas intenções ao patrocinarem eventos, colocarem suas marcas como pró-sustentabilidade, mas eu acredito que ao estamparem suas caras, vocês mostram quem realmente são: empresas. E empresas, todos sabem, visam em primeiro lugar o lucro. Se alguém tem algum argumento contra, favor me indique, eu gostaria mesmo de ouvir que não é assim, porém, ainda não achei tal ponto.
O que quero dizer, nos finais, é que acredito na anonimidade dos super-heróis. Se eu estivesse na Guerra Civil (a saga da Marvel, não a de verdade) eu tomaria fácil o lado do Capitão América, pela não aprovação da Lei de Registro de Super-Humanos. E não pelo princípio de que isso traria ameaça aos próximos do mascarado. Partindo da linha que aqueles que desmistificaram os super-humanos, acredito que o problema de um, é o problema de todos. E aquele que coloca a máscara, nos mostra que ele está lutando por nossos problemas e não para resolver os seus.

Claro que começamos a nos mover a partir de um problema nosso, mas novamente, será nosso mesmo? Será que suas contas a pagar, se tornaram o problema apenas porque naquele mês você gastou mais? Será que realmente, nossos problemas são únicos (os problemas e não suas medidas, que fique bem claro). Não seria válido que ao lutar por nossos problemas, poderemos vestir uma máscara, mas que ao ficarmos cansados, passamos a máscara para o próximo, enquanto voltamos para sermos nós mesmos e no dia seguinte, vestir a máscara novamente?
Eis minha proposta, empresas que querem salvar o mundo e pessoas ordinárias. Há uma questão importante levantada no filme Superman Returns, onde Lois Lane (eterno par romântico do escoteiro), escreve um artigo no final do filme “Porque o mundo precisa do Superman”. Eu concordo, mas proponho algo mais além e de maior massa. Acho que o mundo precisa de Supermen. No plural. Sejam super-heróis de verdade. Tirem a máscara mal-feita, composta de ouro e diamante de suas caras e coloquem uma que seja acessível para todos nós, para que, ao menos, em nossas lutas sejamos iguais e companheiros. Avante, Salvadores!
